Aperto.

Uma caixinha, uma chave, uma faca, um coração. Cirurgicamente, cuidadosamente, a pele à esquerda da lâmina afasta-se daquela à qual adjacia. Ainda quente, o sangue marca; escorrega, deixa sua mancha, esfria-se, faz quem o vê sentir a dor. Paulatinamente, meticulosamente, camada a camada.

Aquele coração, antes preso à espessa manta de pele, agora tem mais espaço para bater. Sente o ar tocante, que pouco pressiona. Mas aquece e esfria sempre; não é mais confortado por aquela que o protegia.

Cada acesso, cada vaso, veia, artéria interrompidos. Agora o coração estava livre de tudo o que o prendia. Estava livre, só, sem qualquer preocupação, sem qualquer função. Percebeu que não queria ser livre.

Passo a passo, somente o coração a bater e a areia do chão a farfalhar a cada passada. Silêncio, o coração. A chave destrancando a pequena caixa. Toma o coração o pequeno espaço aberto na caixa, a qual se tranca pela ultima vez, deixando um peito vazio e um coração sem sangue.

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Vontade. Decisão.

Ainda não sei como lhe contar. Minha certeza reside na necessidade de dizer o que sinto. Fato: vou perder as palavras, o ar, meu coração vai acelerar. Mas se não fosse assim, onde estaria o amor? Pois não existe resposta única a sentimento de tal complexidade. De fato, se fosse simples, não teria o valor que tem.

No começo, confesso-lhe ter achado inesperado o que estava acontecendo. Realmente, é difícil identificar e aceitar o novo; entender como sua presença rouba meu olhar, ou como sua voz preenche meus ouvidos, meu sorriso almeja repetir o seu… E estar com você torna-se agradável acontecimento, mesmo que algo desagradável tente atrapalhar. Claro, se fosse tudo perfeito e fácil, não haveria desafio. Mas o desafio é necessário à vitória.

No entanto, a existência do desafio não é suficiente para a vitória. Há que se mover, gastar energia, extrapolar os próprios limites pessoais até então conhecidos, ousar um pouco, insistir um pouco, sobretudo usar a emoção sem abandonar a razão e aplicar a razão sem negligenciar a emoção.

Claramente, enfrentar o desafio não garante a vitória. Mas não enfrentar garante a derrota, uma derrota frouxa e amarga: a derrota de sequer ter encarado defronte o desafio, de não se ter dado a mínima chance à vitória. É uma derrota aceita de bandeja; a derrota aclamada de pé pelo tédio e pelo medo.

Entre a certeza de nunca tornar este amor parte de minha vida e a dúvida sobre sua resposta diante disto, eu fico com a dúvida. E, apesar da derrota em bandeja ser grande motivo para eu querer tentar, isto não chega nem perto da motivação que sinto ao lembrar de você, pensar em você, sonhar com você. Quero dizer que lhe amo porque amo, e isto basta.